
O que significa o score de legibilidade no aplicativo Hemingway Editor para textos em PT-BR
Entenda como o algoritmo do Hemingway calcula a dificuldade do seu texto em português e por que ele nem sempre acerta a mão na gramática brasileira.
Uma análise real de como o Ginger e o Gramaticamente lidaram com a formalização de uma dissertação de mestrado, revelando onde a IA falha e onde o purismo gramatical salva a nota.

Imagem editorial ilustrando Ginger Software vs. Gramaticamente: O Choque Entre IA Reescrita e o Purismo na Academia
No mês passado, recebi um e-mail desesperado de Tiago, um estudante de mestrado em Ciência da Computação aqui em São Paulo. Ele estava travado na revisão final da dissertação. O problema não era o código ou a metodologia, mas o texto. A banca havia rejeitado o envio anterior alegando que a linguagem era "coloquial demais para um periódico de nível A". Tiago tentou resolver sozinho, mas o hábito de escrever como fala — frases curtas, voz ativa constante, conectivos informais — era forte demais. Ele me pediu uma recomendação de ferramenta que não apenas corrigisse o erro, mas o ensinasse a escrever como um acadêmico.
Diante desse dilema, decidi montar um laboratório de teste controlado. Peguei o capítulo de introdução da tese dele (cerca de 2.000 palavras) e submeti ao tratamento de dois pesos pesados do mercado: o Ginger Software, famoso por sua reescrita baseada em inteligência artificial, e o Gramaticamente, conhecido por sua abordagem mais purista e tecnicamente rigorosa com a norma culta brasileira. O objetivo não era ver quem acerta mais o verbo "haver", mas quem consegue transformar "a gente viu que" em "constatou-se que" sem estragar o sentido original.
Tiago tinha um hábito específico que irritava orientadores: o uso excessivo de "nós" para se referir aos pesquisadores e o emprego de verbos frasais. Para este teste, isolei um parágrafo problemático que continha estruturas típicas de redação de blog, mas que precisavam soar como artigo científico. O texto original era: "A gente percebeu que os dados batem, então fomos lá e olhamos o que estava acontecendo. O resultado deu para ver que o algoritmo falha."
Submeti esse trecho a ambas as plataformas. A ideia era observar não apenas a correção gramatical, mas a sugestão de estilo. O Ginger opera baseando-se muito em modelos de linguagem (LLMs) para reescrever frases inteiras, focando na fluidez. O Gramaticamente, por outro lado, tende a apontar a infração e sugerir uma substitução que respeita a regência e a morfossintaxe estrita.

Ao colar o texto no Ginger, a ferramenta rapidamente identificou que o tom estava inadequado, mas sua solução foi uma reescrita completa. O software sugeriu substituir "A gente percebeu" por "Nós percebemos". Embora "nós" seja gramaticalmente correto, no meio acadêmico brasileiro, especialmente em teses, a preferência é quase sempre pela impessoalidade ou pelo uso da voz passiva sintética para dar objetividade.
O Ginger então tentou elevar o vocabulário. Em vez de "dar para ver", sugeriu "é evidente". Aqui reside o primeiro grande risco da IA reescrita: ela muitas vezes troca uma informalidade por um clichê ou por uma afirmação excessivamente forte. No contexto científico, nada é "evidente" sem prova; "observou-se" ou "notou-se" são termos mais seguros e aceitos pela banca.
A reescrita do Ginger fluía bem, soava como um texto correto de uma revista de divulgação científica, mas falhava na formalidade estrita exigida pela Capes. Ele agiu como um tradutor automático de "informal para formal", sem entender as nuances da retórica acadêmica brasileira. Foi eficiente para limpar a superfície, mas fraco na adequação de gênero textual. O mesmo ocorre em outras ferramentas que focam apenas na fluidez; eu já vi isso ao analisar como o score de legibilidade no aplicativo Hemingway Editor para textos em PT-BR funciona: ele mede a complexidade, mas não a adequação à norma culta.
Quando abri o mesmo arquivo no Gramaticamente, a abordagem foi cirúrgica. O sistema não tentou reescrever o parágrafo de uma vez. Ele destacou "a gente" como uma expressão coloquial inadequada para o contexto. Ao clicar na sugestão, ele ofereceu "observou-se", "constatou-se" ou "percebeu-se", explicando que o uso de "a gente" é impróprio para textos formais.
O grande diferencial aqui foi o porquê. O Gramaticamente trouxe uma nota explicativa sobre a impessoalidade do discurso acadêmico. Ele ensinou ao Tiago, naquele momento, que o sujeito "nós" (pesquisador) deve se apagar para dar lugar ao sujeito "a pesquisa" ou "o estudo". Isso é educação editorial.
Na frase "o resultado deu para ver", o Gramaticamente foi ainda mais específico. Ele apontou a inadequação do verbo "dar" no sentido de "permitir" e sugeriu "permitiu observar" ou "possibilitou a visualização". Além disso, ele sinalizou o gerundismo em "estava acontecendo", sugerindo "que ocorria" ou "em andamento", adequando a temporalidade ao padrão narrativo técnico.
Para um usuário que precisa entregar um trabalho final, a experiência no Gramaticamente é mais trabalhosa. Você não aceita um clique mágico que conserta tudo. Você precisa aprovar cada mudança. Entretanto, o resultado final é um texto onde o autor reconhece suas escolhas linguísticas.

Há um detalhe financeiro que não pode ser ignorado neste confronto. Em 2026, uma assinatura premium do Ginger custa cerca de R$ 49,90 mensais se cobrado no cartão de crédito internacional, o que pode oscilar com o dólar. O Gramaticamente, mantendo uma precificação mais localizada, gira em torno de R$ 29,90 por mês para o plano individual.
Mas o custo real não é apenas o dinheiro do subscription. É o risco de aceitar uma sugestão de estilo da IA que soa bonita, mas muda o sentido do seu argumento. O Ginger, em outro trecho do teste, sugeriu trocar "a falha no algoritmo" por "o defeito do algoritmo". Na computação, "falha" (bug) é algo técnico, enquanto "defeito" pode remeter a um erro de fabricação ou qualitativo. Uma simples troca de sinônimos feita pela máquina pode deturpar a precisão técnica que a banca exige.
O Gramaticamente, por ter seu motor calibrado especificamente para o português do Brasil e suas regras gramaticais atuais (incluindo o Novo Acordo), tende a ser mais conservador com as trocas de vocabulário técnico. Ele foca na estrutura, deixando a precisão dos termos técnicos (jargões) a critério do autor, desde que a frase ao redor esteja sintaticamente perfeita.
Um ponto curioso surgiu quando testamos a capacidade de detecção de plágio e repetição lexical, que é crucial em teses longas. O Ginger tem um módulo de reescrita para evitar repetição de palavras. Tiago usava muito "porém" para começar frases. O Ginger sugeriu alternativas como "contudo", "entretanto" e "todavia". Isso é excelente para a variedade vocabular.
Contudo, o Gramaticamente apontou algo mais profundo: ele sugeriu que o uso excessivo de conectivos adversativos poderia indicar que a argumentação não estava fluida, mas sim fragmentada. Ele sugeriu fundir frases em vez de apenas trocar o conectivo. É a diferença entre maquiar uma frase e remodelar o parágrafo.
Essa funcionalidade lembra muito o que fazemos ao tentar reduzir o tom de agressividade em e-mails de trabalho usando a ferramenta de detecção de tom do Grammarly, mas com um foco na elegância e não apenas na empatia. Enquanto o Grammarly olha a emoção, o Gramaticamente olha a norma e a estilística clássica.
Após rodar o texto inteiro pelas duas ferramentas, compilamos três versões para apresentar ao orientador de Tiago: a original, a corrigida pelo Ginger e a corrigida pelo Gramaticamente.
O orientador, um professor com trinta anos de estrado, descartou a versão do Ginger rapidamente. Ele disse que soava "traduzida", com frases longas demais e um vocabulário que parecia forçado, típico de quem consulta sinônimos sem entender a nuança. A versão do Gramaticamente foi aprovada com ressalvas apenas de conteúdo. O professor destacou que o texto estava "limpo", no sentido técnico, e que a impessoalidade estava aplicada corretamente.
O aprendizado aqui é direto. Para textos acadêmicos, Blogs, E-mails ou Redações do ENEM onde o estilo importa, a inteligência artificial que "adivinha" o que você quer dizer é perigosa. O purismo gramatical, que parece chato e antiquado, é na verdade o alicerce que sustenta a autoridade científica.
Se você está escrevendo sua monografia ou artigo para periódico agora em 2026, não caia na armadilha de apenas apertar o botão "Aceitar tudo". O Ginger pode servir para dar uma limpada inicial numa conversa informal ou num post de LinkedIn, mas quando o assunto é严肃 academic research, o Gramaticamente oferece a segurança normativa que a universidade ainda exige. O processo de reescrita deve ser guiado pela regra, não pelo palpite da máquina.
Adequar a linguagem coloquial ao padrão acadêmico não é uma tarefa de tradução automática, é um exercício de síntese e precisão. Ferramentas que explicam a regra dão ao estudante o peixe e a vara; as que apenas reescrevem dão apenas o peixe, e às vezes, um peixe estragado.