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Correção Gramatical

O que significa o score de legibilidade no aplicativo Hemingway Editor para textos em PT-BR

Entenda como o algoritmo do Hemingway calcula a dificuldade do seu texto em português e por que ele nem sempre acerta a mão na gramática brasileira.

Imagem editorial ilustrando O que significa o score de legibilidade no aplicativo Hemingway Editor para textos em PT-BR

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Todo redator web já passou por isso: você termina um artigo, cola o texto no Hemingway Editor e o fundo fica vermelho, indicando que o texto é "dificílimo". A nota de legibilidade dispara para algo como "Grade 14" ou "Pós-graduação". O pânico se instala. Será que escrevi grego? Será que meu público, formado majoritariamente por brasileiros com ensino médio, vai fechar a aba antes de chegar ao terceiro parágrafo?

Como analista de ferramentas do Dicioapps, já vi emails de leitores assustados com pontuações baixas. A verdade é que o Hemingway Editor não lê português como um humano; ele lê matemática. Para entender o que aquele número significa, precisamos dissecar o algoritmo por trás da cortina, especificamente para a nossa língua.

O cálculo não entende contexto, ele conta sílabas

Muita gente acha que o aplicativo possui um dicionário semântico interno que julga se uma palavra é "difícil" ou "rebuscada". Isso é mito. O Hemingway não sabe que "pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico" é uma palavra rara; ele sabe apenas que ela tem muitas sílabas.

O algoritmo utilizado é uma variação do índice Flesch-Kincaid. Em português, a fórmula depende de duas variáveis principais: o número médio de sílabas por palavra e o número médio de palavras por frase. O programa atribui um "peso" a cada sílaba. Se você escreve "casa", o custo é um. Se você escreve "habitáculo", o custo sobe. Por isso, o Hemingway adora o verbo "fazer" e detesta o verbo "confeccionar", mesmo que ambos signifiquem a mesma coisa no contexto da sua receita de bolo.

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O problema é que a estrutura fonética do português difere do inglês. Enquanto o inglês tem muitas palavras monossilábicas (e.g., "strength", "world"), o português utiliza mais sílabas para convey a mesma informação. O algoritmo, originalmente calibrado para o inglês, muitas vezes penaliza textos em PT-BR apenas porque nossa língua é mais "vogalenta" e rítmica por natureza.

A adaptação do "Grade Level" americano para o Brasil

Outro ponto de confusão recorrente é a coluna que diz "Grade 8", "Grade 12" ou "Grade 14". O usuário brasileiro vê "Grade 8" e imagina que o texto está adequado para uma criança de 8 anos de idade. Errado.

"Grade" refere-se ao ano escolar americano. Nos Estados Unidos, o "Kindergarten" é o ano zero. A "Grade 1" é o nosso primeiro ano do ensino fundamental I, mas com crianças de 6 ou 7 anos. A "Grade 8" corresponde, aproximadamente, à oitava série, que é o fim do ensino fundamental II ou o início do ensino médio por aqui (alunos por volta de 13 a 14 anos). Portanto, um "Grade 8" no Hemingway é, na prática, um texto acessível para a vasta maioria da população adulta brasileira, considerando os índices de alfabetismo funcional do país.

Se o seu texto para uma empresa de turismo em Florianópolis marca "Grade 14", ele está exigindo um nível de leitura pós-graduado. Isso é um problema se você quer vender pacotes de viagem para famílias, mas pode ser perfeitamente aceitável se você está escrevendo um monografia sobre engenharia civil para a UFSC. O erro está em tentar adequar um texto técnico para o padrão "Grade 8" só porque o aplicativo pediu. Eu mesmo já perdi horas tentando simplificar termos de um texto técnico sobre programação no VS Code, apenas para perceber que o público daquele artigo específico não teria dificuldade com os termos originais.

O mito de que todo advérbio em "-mente" deve ser eliminado

O Hemingway é famoso por marcar advérbios em azul. A recomendação padrão é: remova-os. No entanto, no português, essa regra faria com que perdêssemos uma boa parte da nossa capacidade expressiva. Advérbios como "infelizmente", "rapidamente" ou "obrigatoriamente" conferem nuances que são difíceis de substituir sem alongar a frase.

O aplicativo enxerga o sufixo "-mente" como um inchaço desnecessário. Na prática, a ferramenta força você a usar o verbo forte. Em vez de "ele correu rapidamente", o Hemingway quer "ele disparou". Isso é ótimo para a narrativa de ficção ou para títulos de jornal, onde a economia de palavras é ouro.

Contudo, em textos corporativos ou instrucionais, o advérbio muitas vezes é necessário para precisão. Se eu escrever "feche a porta", o ato é simples. Se eu escrever "feche a porta suavemente", estou evendo uma instrução de segurança. Remover o "-mente" pode mudar o sentido da instrução. Ferramentas como o Ginger Software costumam ser mais flexíveis com o estilo do que o Hemingway, permitindo que você mantenha a voz ativa sem massacrar os modificadores.

Frases longas e o medo da vírgula

O vermelho no Hemingway aparece quase sempre nas frases muito longas. O padrão do aplicativo considera "difícil" qualquer frase que passe de um certo número de palavras, e "muito difícil" se passar de outro limite. A solução do software é quebrar o período.

Aqui entra uma particularidade da gramática portuguesa: a nossa love affair com orações intercaladas e o uso abundante de vírgulas. Em inglês, a estrutura tende a ser mais linear: Sujeito - Verbo - Objeto. Em português, podemos inverter, antecipar, explicar e retomar tudo na mesma frase, separando por vírgulas.

O Hemingway conta palavras até o ponto final. Ele não importa se você usou cinco vírgulas; para ele, uma frase de 40 palavras é uma corda bamba para o cérebro do leitor. E, estatisticamente, o algoritmo tem razão. Estudos de cognição mostram que, após um certo número de palavras sem pausa final, a memória de trabalho do leitor sobrecarrega e ele precisa voltar para reler o início da frase.

O segredo para domar o vermelho no Hemingway sem perder o estilo brasileiro é procurar os conectivos "e", "mas", "porque", "que". Muitas vezes, onde você escreve "e", começando uma nova oração, existe um ponto final esperando para ser usado. Dividir uma frase de 25 palavras em duas de 12 e 13 muda o ritmo da leitura drasticamente. Tente isso na próxima vez que o painel ficar vermelho.

Legibilidade não é sinônimo de boa gramática

Por fim, um engano perigoso: achar que um score "verde" ou "amarelo" no Hemingway garante que o texto está gramaticalmente correto. O Hemingway Editor não é um corretor gramatical no sentido estrito. Ele não vai apontar uma crase faltante, um erro de concordância verbal ou um problema de regência nominal.

Ele foca na estrutura e no peso da frase. Você pode ter um texto com concordância perfeita, escrito no português mais culto do século XIX, e o Hemingway vai marcá-lo como "pós-graduação" e "muito difícil" pela simples razão de que Machado de Assis adorava frases longas e vocabulário erudito. Ferramentas de correção focam na norma culta; o Hemingway foca na facilidade de decodificação visual.

Ao revisar seus textos, use o Hemingway como um termômetro de cansaço mental, não como um professor de português. Se o texto é para um post de blog sobre culinária, busque o verde. Se é para um editorial opinativo, o amarelo é tolerável. Se é para um artigo científico, ignore o vermelho. O score reflete o esforço cognitivo, não a qualidade da sua alma ou o valor da sua mensagem.

A conclusão é que a ferramenta oferece um diagnóstico, não a receita definitiva. Ela aponta onde a leitura pode emperrar, mas cabe a você decidir se aquele tranco é proposital — para criar suspense ou ênfase — ou se é um descuido de estilo. O verdadeiro profissional sabe quando quebrar uma regra para que o texto soe humano. Afinal, a comunicação eficiente não é apenas sobre ser fácil de ler, mas sobre ser fácil de ser entendido e, acima de tudo, ser memorável.

Roberto Almeida
Roberto AlmeidaAnalista de Ferramentas de Escrita e Correção Gramatical

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